Na hora, eu só consegui ficar perplexo. Sei que deveria ter sentido muitas coisas como tristeza, raiva ou até mágoa – que é tudo isso junto – e não duvido que essas coisas até tivessem por lá. Mas, tudo que me ocorria naquele momento era uma profunda perplexidade. Aquela cena era inconcebível pa mim, não podia crer na atitude dela.
Fazia pouco tempo eu lhe escrevera uma carta, fruto de uma viagem de ônibus. Sabe como são viagens de ônibus, a gente fica ali sozinho, sem fazer nada por um bom tempo, a cabeça vazia, acaba tendo idéias. É difícil evitar. Dessa vez fui assaltado pelo desejo de escrever uma carta e, servindo-me do pretexto da despedida, caí na tentação. Então, escrevi a ela como era grato pelo dia em que nos conhecêramos, como tudo fora inusitado e como tinha conhecido uma pessoa fantástica. Não poupei elogios. Reconheço que nesse ponto exagerei e no fim das contas pintei uma deusa mais que uma mulher. Não pergunte porque o exagero. Não sei se foi pelo afã de agradar ou se foi uma tentativa de achar uma explicação para tanto afeto, que no fundo sabia ser totalmente gratuito.
Na manhã seguinte, achei um envelope nas minhas coisas. Era azul claro e vinha selado com um adesivo de coração, bem adolescente. Sabia que era dela e, pelo cuidado, imaginei que fosse um agradecimento. Tive medo de abri-lo. Não queria consumir aquele gesto de carinho, talvez o derradeiro, afinal eu ia embora. Assim, dei-me por agradecido e guardei o envelope para outro dia em que saudades me apertassem o peito.
Ainda naquela semana, numa conversa de despedida, em meio a “você vai deixar a gente mesmo é?” e “vê se não some, viu?”, resolveram marcar um sessão de filmes na minha casa. Ela adorou a idéia. Eu, inocentemente, também. Então, no sábado pela manhã a comitiva de mulheres chegou a minha casa com filmes, chocolate e, é claro, sorvete - até aquele dia não sabia o que era Haagen Dazs. Como manda o figurino, fiz um tour pela casa, apresentando cada cômodo até chegarem ao meu quarto. Riram da caricatura à porta e mais ainda do cobertor de foguetes e carrinhos que minha mãe insiste em colocar na minha cama. Viram as fotos na parede e me encheram de perguntas: “esse aqui é você é? Nossa como mudou...”. O telefone tocou e eu, inadvertidamente, deixei-as sozinhas em meu quarto para atender a ligação. Quando voltei, deparei-me com as caras mudas de constrangimento olhando para o chão. Olhei na mesma direção e vi pedaços de papel por todo lado. Então, ela veio até a mim com o último pedaço da carta na mão, uma voz cheia de ódio e lágrimas nos olhos: “você não teve nem a consideração de ler a porcaria da carta que lhe escrevi com tanto carinho! Nem ao menos abriu o envelope pra parecer que leu. Pois agora quero ver como é que você vai ler!”. Foi embora e levou a comitiva consigo. Eu fiquei ali, parado, de pé, simplesmente consternado, sem entender como uma mera suposição fora suficiente para desfazer todas as palavras e todo o carinho que havia na carta.
O Nome dela eu prefiro não dizer, mas bem que poderia ser Katrina.