Faz algum tempo que quero escrever algo sobre o acordo que o Brasil articulou com o Irã e a Turquia – aliás, faz tempo quero escrever qualquer coisa útil nesse blog. Mas, a questão é bem delicada e eu estou trabalhando ela em minha cabeça aos poucos. De certo, esse jogo da política internacional é complicado, as cartas que não são jogadas são tão importantes quanto a utilizadas, e nós só temos algum acesso a estas.
Eu sempre gostei muito da posição de Lula fora do país, apesar das diversas críticas feitas ao Presidente e ao serviço diplomático, no sentido de que ele se aproxima demais de figuras como Fidel e Ahmadinejad. Lá fora ele parece representar um país bem melhor do que o ele deixa em casa. Além disso, nunca achei que as visitas a Cuba e ao Irã fossem um desgaste, mas sim um privilégio de quem tinha tamanha admiração e podia conversar até com os fora-da-lei. Na minha perspectiva, Lula estava utilizando bem esta abertura, propondo novas alternativas para lidar com problemas já antigos.
Não nego que os governos do Irã e de Cuba tenham problemas graves, especialmente no que diz respeito à relação com seus opositores. Só que as formas com que se vem tratando estas questões – embargos econômicos, repressões políticas, invasões, etc. – já se mostraram ineficazes e extremamente danosas à população que se buscava ajudar. Esse foi justamente o gancho que deu a presidência à Barack Obama, um homem negro, de origem africana e algo muçulmana. Não é à toa que um dos seus primeiros gestos após eleito foi visitar alguns países muçulmanos e pregar uma reconciliação. Só que Obama parece não ser capaz de abrir totalmente das antigas práticas, nem de apresentar e sustentar métodos novos – vide o aumento de tropas no Afeganistão, a permanência de Guantánamo e o fracasso de Copenhague.
Por isso, quando li que Lula tinha conseguido concertar um acordo sobre o problema do Urânio no Irã, senti uma enorme felicidade e orgulho de ver que o Brasil estava assumindo uma posição independente e marcante no cenário internacional, aproveitando justamente esta demanda por novas perspectivas. Fazia tempo que não via tantas e tão positivas menções ao País nos jornais estrangeiros, sem nenhuma referência ao futebol, ao carnaval, ou à violência. Se tivesse seguido meu primeiro desejo de escrever aqui no blog, teria feito uma exultação deste momento.
Só que essa empolgação começa a ceder lugar diante da possibilidade de o Irã estar usando a ousadia do Brasil simplesmente para enfraquecer a posição estadunidense ou para ganhar tempo para preparar sua próxima jogada. Imagino que esta hipótese tenha ocorrido à Chancelaria brasileira e que eles decidiram assumir o risco. Isto, porém, não é motivo para se tranqüilizar, longe disso.
O que mais me inquieta é ver a forte resistência ao acordo firmado em Teerã, que começou com a crítica aberta de Hilary Clinton, acompanhada de diversos países. Até a Agência Internacional de Energia Atômica se irresignou, parecendo até ofendia por não ter participado do pacto. Mesmo os países que elogiaram a iniciativa brasileira, como a Rússia, estão apoiando a nova rodada de sanções contra o Irã, que conta com o aval de doze dos quinzes países que compõem o Conselho de Segurança da ONU. Segundo Lula, estes países não sabem fazer política sem ter inimigos. Ele deve estar certo, mas neste momento a afirmação pareceu uma verdade desesperada.
No início, entendi a posição dos Estados Unidos como necessária para manter a construção que eles vinham fazendo. Ela poderia servir inclusive para incentivar o Irã a cumprir o acordo firmado. Mas, começo perceber que, do ponto de vista estadunidense, os embargos e as outras tantas sanções nunca foram ineficientes. Estas só não serviam aos que queriam paz e outras quimeras do gênero, mas eras extremamente eficazes em mostrar o preço do desalinhamento. Talvez, tão grande quanto o avanço que a iniciativa do Brasil representou seja a reação encabeçada pelos Estados Unidos, para que se veja por aqui também o peso da independência.
Só espero que esta viagem ao Irã não se mostre uma tentativa inocente de mudar o mudo. Espero não sentir vergonha de um mico em meio à macacos velhos.