terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dança do Destino

São trilhas e linhas e apostas
e acertos e erros no mesmo barco
São muitas e poucas e boas
e trilhas, destinos do mesmo mal

Das bocas que chamam
das pernas que correm
dos cantos que ecoam
de encantos que acodem

Das alvas plumas
dos versos que correm
o ouro da ponta
que então lhe comove
os ventos que trazem
consigo do tempo
a faca do seu algoz.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sereias no Buracão

Eu vi três Sereias na Praia
E suas peles, Branca, Morena e Negra
Mais que a pura areia branca
Davam Majestade à luz do sol.

Eu vi três Sereias na praia
E como é de praxe com essa espécie
Fui lhes pedir licença, para poder
dar um mergulho em sua casa

E Cada Mergulho foi um tapa
mãe Iemanjá estava irada
mas fora ela que me chamara!

Saí de fininho escondendo as marcas
Peguei minhas coisas e sentei numa pedra
e as sereias voltaram pra casa

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Pai de Santo

Então você pega sua calça e camisa brancas e sai de casa. A parte o fato das calças, bermudas e enfim, as "partes de baixo" sujarem com facilidade, eu adoro vestir branco, me sinto muito bem. muito bem, obrigado.

O problema é quando a gente encontra um conhecido. como eu não me ligo muito na reação de pessoas aleatórias, o que me incomoda é quando um conhecido larga "Tá parecendo pai de santo" ou "Virou pai de Santo foi?". Vem cá os pais de santo patentearam a porra da roupa branca, foi? Essa pergunta caberia se o tom da observação, subetendesse uma espécie de veneração, como se eu tivesse roubado o martelo de thor.

Aí eu fiquei pensando, se eu me visto de paletó e gravata, a reação mais negativa é "exame de fezes?", sem nem um tomzinho de escárnio, mas querendo dizer "tá bonito, hein? vou te tirar de tabaréu. fez exame de fezes?". Nem uma vezinnha um "Virou advogado, foi?" além de vários "Tá bonito, hein!" (meu ego agradece).

Então, pra mim virou um problema com religião, que nem é a minha, diga-se de passagem (oficialmente não tenho uma). Aí eu fiquei lembrando das dezenas de "amigos" que já me fizeram a tal "observação", alguns sem áspas, o que ameniza o sentimento de indignação em parte. Aí cheguei à conclusão de que nenhum desses perspicazes observadores eram, digamos, fundamentalistas religiosos de onde poderia tirar algum tipo de conclusão fácil, já que eu não deveria usar "essas coisas de demônio", seria simples, mas nããããão, os observadores incluem aquele broder mais muito doido dos mais muito doidos, que já deve ter sido classificado de tudo de "ruim", já deve ter se metido com (e sido) todo tipo de pessoa, das mais desvairadas, usado todo tipo de drogas (nada contra aqui, só querendo fazer um caso), e sendo julgado, rotulado e escrachado por tudo isso e ainda mais, conviveu ou convive, com "todo tipo" de pessoa e ainda respeita aquele outro por ser diferente, vez ou outra estuda alguma opressão ou de gênero ou de classe ou étnica, mas na hora que vê um camarada de branco se sente na obrigação "moral" de fazer as tais "observações".

Mas é óbvio, disse eu pra mim mesmo. Já foi crime ser pai de santo. e numa sociedade tão apegada a suas raízas escravocratas não pode se desfazer dessa. Pai de santo é coisa de preto e macumbeiro, coisa de filho do tinhoso. aí não pode se vestir de "gente desse tipo aí". Antigamente era só a "polícia" do império ou da igreja, hoje em toda esquina tem um escomungado que parece membro voluntário dos Dedos Duros da Família com Deus pela Liberdade... Mas aí você está pensando "ah, mas eu não falo na intenção..." ou "mas eu respeito muuuito o candomblé, até vou em terreiro nas festas" ou "ah!, mas isso aí já acabou faz tempo".

Sua intenção não importa, a frase tem um contexto quer você queira quer não; Se você respeita diga outra coisa, tipo, Branco te cai bem ou Branco te cai mal, ou Quer virar refletor, qualquer desgraça serve; Não, não acabou seu alienado.

sábado, 3 de agosto de 2013

Eu queria matar você

eu queria te matar. matar como o pessoal da ditadura matava, aquela morte retroativa que desfaz o nascimento. queria não pensar mais em você, não lembrar mais, nem sentir as vibrações da sua existência. assim, eu me sentiria puramente só de novo e totalmente irresponsável. a sua existência não teria mais peso para mim e a minha existência não pesaria tampouco. não sei se o problema está em você ou em mim, mas eu lembro dele quando lhe vejo. talvez, essa morte assim fantasiosa, essa com efeitos modulados, poderia se aplicar a mim. seria um suicídio baseado numa técnica alemã, com um nome grande, que significa morte parcial, de um pedaço que passa a nunca ter existido e que não acaba com a vida toda. uma interpretação conforme.

desconfio até que você gostaria de me matar também. ainda mais desse modo parcial, porque poderia satisfazer o desejo de me amar e de me odiar ao mesmo tempo, num só gesto. a questão que restaria é essa: será que nossos eus pós phantasievollskonformauslegung, esse eu sem eu mesmo e esse você sem mim, se encontrariam de novo sem saber que estiveram juntos uma vez, se apaixonariam de novo e chegariam nesse mesmo lugar que estamos agora?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Assimétrico

Diga-me teu nome
e o que faria com ele?
chamar-te-ia.
Não.
Por favor, qualquer coisa, algo pra designar-te
Chama-me então Marte
Mas Marte é nome de homem!
Isso é problema seu, se quiseres me chama Marte se não, não me chamas. tanto melhor seria
Está bem, Marte então...
...
Não queres saber o meu?
o teu o quê?
meu nome, como me chamo.
Não.
E como espera chamar-me?
não espero.
E se precisares?
Se houvesse nesse mundo algo que não pudesse por mim, bastaria gritar um joão ou maria
mas e eu?
e tu o quê?
se precisares de mim.
E o que achas que há em ti que não há em mim ou que a há e mim não me basta?
O Amor!
há, o Amor (gargalhadas)
O Amor é o fogo que arde sem se ver!
Se quiser citar a bíblia cite melhor...
não é a bíblia, é renato Russo, Não conheces Legião Urbana?
Então deixe-o citar a bíblia. e cale-se.
É ferida que dói e não se sente...
Ame ao próximo como a ti mesmo.
essa é fácil!
é a prova de que estás errado, desde o princípio.
como?
O verdadeiro amor é o amor por si, o amor ao outro é reflexo da medida do seu autoamor.
amo mais ao outro que a mim!
mas não podes. se o amor ao outro tem como referencia o amor a si, todo o excedente é doença.
Não deusa, não fale assim.
Deus, sou marte, Esquecestes?
Me recuso a chamá-la assim.
Recuse e arranco-lhe a cabeça.
De que me serviria uma cabeça num mundo onde meu coração é dilacerado no fio de suas palavras?
É isso que desejas?
não. mas tudo o que desejo não tenho e não sou objeto de qualquer querer, então tanto faz.
Como poderia alguém desejar ser tão débil?
Não sei. por isso desejo a ti e não a mim.
Então vês porque não posso desejar-te?
Não. Vejo porque não posso eu desejar a mim mesmo. Já uma Deusa tudo pode.
Diga Deusa de novo e sua cabeça será minha.
já o é, seja em cima do meu pescoço ou num vaso com bálsamo.
E em baixo do solo, com os vermes?
se assim o desejares...
...
Toma o que é teu e deixa-me morrer.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Caloeta Soveno


Gosto muito de te ver Princesa Serpente
Você é meu caminho, Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você, coberta de núvens

Fontes de Mel, de amor delicado
Parece pôr tudo a prova,
enchendo a vida oca da touca de um bebê sem cabeça
um pecado.

Apostar na alegria? Loucura do coração
o negócio mesmo é ficar odara
Lamber os olhos, torcer os cabelos, a mim e a tudo que quis
Pra ficar tudo jóia rara

Loucura do coração? aí sim.
O céu, de tão confuso derreteu
Nada de novo ao luar, neguinha
Deixa o ciúme passar e siguemos juntos

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O STF, a Anistia e o Esquecimento


A Comissão da Verdade, recentemente criada pela presidenta Dilma Rousseff, tem suscitado diversas polêmicas, especialmente a sobre a possibilidade de persecução e punição dos agentes políticos envolvidos na repressão. A questão parece resolvida, ao menos juridicamente, pela Lei da Anistia, já reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal como inteiramente constitucional. Isso, no entanto, não satisfaz nem ameniza o desejo declarado de retribuição de muitos dos que foram ou que se sentiram ofendidos pelo regime ditatorial. Será esse o caminho da reparação histórica e da consolidação da democracia?

De início, é preciso fazer um esclarecimento: não acredito nas penas privativas de liberdade. O cárcere é mais uma espécie de violência em nossa sociedade, nomeadamente nas condições desumanas que aqui no Brasil se dão. Se há algo de útil ou proveitoso na punição é o processo que leva até a ela. Este sim tem algum poder de promover a catarse necessária para se superar as mazelas provocadas pelo delito.

Para isso, entendo que ele - o processo - deveria ser feito com o máximo de oralidade e o mínimo de papéis, em sessões e audiências que não fossem públicas para não transformar o acusado em bode expiatório de uma sociedade cheia de culpas, mas que ao menos permitissem aos interessados e envolvidos se acusarem e se defenderem pessoalmente. Assim, o acusador não trataria de um mero nome em um papel, mas de uma pessoa concreta. Esta pessoa não teria que enfrentar apenas laudas de termos técnicos sobre um episódio qualquer, mas sim as implicações e os significados sociais de seus atos.

Após esta verdadeira via crucis, a prisão, que já é inútil, pois só atinge cerca de um por cento dos crimes, perderia também sua importância simbólica, pois o sentimento de justiça já estaria satisfeito. Aí, as medidas que atualmente são secundárias a exemplo da perda de direitos, de licenças, do poder familiar, bem como a necessidade de reparação dos danos, etc., seriam suficientes para neutralizar os efeitos do crime e prevenir novas ofensas.

Trata-se sem dúvida de uma utopia, mas que serve para destacar dois pontos importantes: a prisão é uma violência em si mesma; enfrentar os fatos e reparar os danos é indispensável. A decisão do STF na ADPF 153 sobre a Lei 6.683/79 - a Lei da Anistia - permitiu que esses dois pontos pudessem ser efetivamente atendidos nesse momento em que a sociedade brasileira finalmente resolve se debruçar sobre os eventos brutais que marcaram o regime militar.

Embora isto não se leia nos votos, este é o efeito da decisão que afastou os abusos cometidos pelo Estado a partir de abril de 1964[1] apenas do crivo penal. Com efeito, apesar de apontarem sua reprovação dos atos de tortura, assassinato, etc., alguns ministros fazem menções expressas e preocupantes ao esquecimento. Assim faz o relator, ao citar o Ministro Laudo de Camargo em pronunciamento sobre questão semelhante em 1945, onde afirmou que o intérprete deve aplicar a Lei conforme a intenção do legislador, que naquele momento, tal como em 1979, era a de lançar “perpétuo olvido aos delitos”. Igual caminho segue a Ministra Ellen Gracie quando apela à acepção grega de anistia que suscita esquecimento e oblívio. Felizmente, a parte dispositiva da decisão apenas valida a Lei; não impõe o esquecimento.

De certo, não estavam em questão nem o direito à verdade, nem à memória. Como esclarecido no parecer da Procuradoria da República, citada em diversos votos, inclusive o do relator, a “extensão da anistia aos abusos da repressão terá efeitos meramente penais”. Ou seja, “outros efeitos da atuação dos agentes estatais no período indicado não estão fora das consequências jurídicas dos desbordamentos éticos e legais [...] a partir do amplo e total conhecimento do que ocorreu nos [...] ‘desvãos da repressão política”, nas palavras da Ministra Carmem Lúcia.

Não se nega aqui que a Lei da Anistia foi fruto também de um esforço dos militares de usar os derradeiros momentos no Poder para frear a inevitável responsabilização pelos que crimes cometidos por eles e seus agentes, todos conscientes de sua iniquidade. Nessa medida a Lei é profundamente reprovável. Contudo, esta iniciativa visava também a prevenir prováveis gestos de revanchismo por parte da nova estrutura estatal que se formava. Seguramente, o direito penal seria perfeito instrumento para, dentro de um regime democrático, ou das aparências de democracia, infligir aos perseguidores as dores que estes promoveram, invertendo os lugares de torturador e torturado.

A decisão do STF impõe a melhor solução possível para este problema. Não cabe, como não deveria em momento algum caber, retorno ao passado para distribuir culpas e impor expiações. Porém, resta possível tudo mais, inclusive o mais difícil: revisitar as memórias, reler os documentos, ouvir os relatos, achar os corpos escondidos. Cabe deixar a dor se expressar, desatar o choro contido, sentir a repulsa e elaborar, como defendem os psicanalistas, esta fase da história do Brasil. Só assim será possível seguir enfrente, só depois de se reencontrar com este lado macabro da nossa humanidade, de reconhecê-lo possível e de aprender a lidar com ele.

Infelizmente, não podemos concordar com o Ministro Ayres Britto e chamar de monstros, de não humanos os agentes por trás da repressão. Tem razão o Ministro quando afirma que o torturador é aquele que encontra intenso prazer diante dos mais intensos sofrimentos alheios. Isso, infelizmente, não os torna menos humanos, posto que o prazer, o gozo para evocar mais uma vez a psicanálise, é elemento marcadamente humano. E isto implica estender a estas pessoas todo o complexo de garantias vigentes em nosso sistema democrático, fazendo por elas o que não foram capazes de fazer com os quem estava sob sua custódia. É apenas como humanos que eles podem responder pelos seus atos e, sem que seja necessário promover uma caça às bruxas, sem que se acendam fogueiras, podem perder suas patentes e benefícios previdenciários, estipêndios e honrarias, bem como serem chamados a indenizar os danos que causaram, a entregar os documentos que ocultaram, a prestar explicações à sociedade.

O fundamental, enfim, é enfrentar a história e não tentar negá-la ou desfazê-la com mais sangue. Os apelos pela punição dos agentes daquele regime ditatorial não devem ser tomados literalmente, mas como demandas pela lembrança, como gritos contra o esquecimento, pois não pode haver paz, não pode reconciliação sem antes assumir responsabilidades e velar os mortos.


[1] Apesar de o início oficial do regime militar ser o dia 31 de março de 1964, tendo o golpe ocorrido na madrugada, é possível afirmar que ele se deu efetivamente em 1º de abril. A data é simbólica e parece pertinente a um movimento autoritário que se dizia em defesa da democracia.